Investigadores do Centro de Ciências do Mar do Algarve (CCMAR) descobriram que os peixes têm capacidade de regular a quantidade de bicarbonato eliminado através do intestino, num processo controlado por hormonas. O bicarbonato de cálcio produzido é insolúvel, formando precipitados, contribuindo substancialmente para a sequestração do dióxido de carbono (CO2) em solução e para a minoração dos seus efeitos no aquecimento global e acidificação dos oceanos.
Um estudo recentemente publicado por investigadores do CCMAR, revela que os intestinos dos peixes eliminam bicarbonato, como parte do processo de regulação iónica, e favorecem a formação de agregados mineralizados de cálcio e magnésio que imobilizam CO2 sob a forma de carbonato e bicarbonato. Já tinha sido anteriormente demonstrado que a formação destes agregados biomineralizados tem um impacto significativo no ciclo oceânico do carbono (que inclui o CO2).
Juan Fuentes, investigador do Grupo de Endocrinologia Comparada e Molecular do CCMAR, descobriu que o processo de secreção do bicarbonato nos intestinos é regulado pelo mesmo conjunto de hormonas que também regulam os níveis de cálcio no sangue de todos os vertebrados.
O cálcio é muito abundante na água do mar e os peixes podem utilizá-lo ingerindo água em abundância. No intestino, as hormonas da glândula paratiróide regulam o processo pelo qual o bicarbonato produzido a partir do CO2 nas células vermelhas do sangue é eliminado. Por ligação com o cálcio formam-se precipitados insolúveis de bicarbonato (ver figura) que são eliminados nas fezes.
Com o aumento do CO2 na atmosfera, ligado ao aquecimento global, prevê-se a acidificação dos oceanos. Em consequência, todas as estruturas calcificadas de origem animal ou vegetal estão potencialmente em risco de dissolução. Uma vez estabelecida a capacidade dos peixes de aumentar a secreção intestinal de bicarbonato pelo efeito de hormonas, o passo seguinte no projecto será verificar a resposta a um cenário de aumento de CO2 na água, para aferir o seu potencial contributo para a neutralização do aumento do mesmo nos oceanos. Estes estudos põem mais uma vez em evidência o equilíbrio frágil e interdependências na natureza, e a importância da preservação dos recursos marinhos, como os peixes.
Investigação financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT)
Referência da publicação do estudo:
Fuentes, Power, Canário. (2010). Am. J Physiol 299, R150-R158
Para mais informações contactar:
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