As organizações da sociedade civil estão a tornar-se peças-chave na defesa do oceano - e a comunidade científica está a exigir que passem finalmente para o centro das políticas europeias. Uma equipa internacional liderada pelo ICM-CSIC alerta que os grandes programas globais de proteção marinha continuam excessivamente focados em soluções tecnológicas e abordagens “top-down” (do topo para a base), deixando de fora centenas de pequenas associações que trabalham há anos no terreno.
Da Base para o Topo: O Novo Caminho para a Governança do Oceano
“As soluções tecnológicas são essenciais, mas por si só não trarão a transformação cultural e social necessária para reverter as crises oceânicas e climáticas”, afirma o investigador Josep Lluís Pelegrí, autor do paper “Collaborative bottom-up Trust Missions: A perspective on long-term strategies with and for people and Nature”. “Precisamos investir de forma decisiva em estratégias de ‘bottom-up’ (da base para o topo) que partam dos cidadãos e que reconheçam e reforcem o trabalho de pequenas e médias associações civis e ONGs que têm trabalhado na linha da frente há anos com recursos mínimos.”
Os investigadores defendem a criação de Missões de Confiança - programas que garantam apoio logístico e financeiro estável às organizações locais, permitindo-lhes ampliar projetos de literacia do oceano, mobilização comunitária e defesa ambiental.
“Se realmente quisermos fomentar uma sociedade empenhada na saúde dos oceanos, os governos nacionais e entidades supranacionais como a União Europeia devem encontrar formas inovadoras de oferecer apoio estável e duradouro às organizações civis que já trabalham ativamente no terreno”, sublinha Patrícia Pinto, investigadora do CCMAR e professora na Universidade do Algarve.
Também Francisco Leitão reforça que “A Década do Oceano ainda não conseguiu mobilizar recursos para estas organizações, representando uma enorme oportunidade perdida de envolver o público.” E acrescenta: “O reforço da literacia oceânica tem sido usado para capacitar pescadores, partes interessadas e a sociedade a compreender o impacto das alterações climáticas e das ameaças globais nas pescas e na vida marinha, e o envolvimento das ciências sociais é fundamental para que os cientistas marinhos interajam e envolvam estes intervenientes. É necessária uma abordagem multidisciplinar, que é o núcleo da TransOcean e deste artigo, para envolver a sociedade numa procura que permita melhor lidar com os futuros objetivos locais e globais de sustentabilidade.”
Jorge Palma destaca o papel transformador da educação: “a literacia do mar é fundamental e é, acima de tudo, uma ferramenta poderosa para a conservação da biodiversidade, já que capacita a sociedade com o conhecimento essencial necessário para agir de forma adequada e consciente em benefício do oceano e da sua biodiversidade.”
Para as organizações civis, esta proposta representa uma oportunidade decisiva: mais recursos, mais autonomia e um lugar assumido na governação oceânica. Nas palavras de Natalia Bojanić, “Esta abordagem oferece um caminho promissor para aprofundar a participação cidadã na governação dos oceanos”, com impacto direto nas comunidades costeiras. David Whyte reforça a urgência de agir: “A União Europeia deve impulsionar mudanças estruturais para garantir que o seu financiamento alcance efetivamente os cidadãos já comprometidos em desenvolver uma relação mais harmoniosa com o oceano, tornando-os atores centrais na proteção dos ecossistemas aquáticos e no desenvolvimento de uma verdadeira economia azul.”
O grupo TransOcean, parte da rede EuroMarine, reuniu investigadores de diversas áreas para este apelo comum. Como afirma Josep Lluís Pelegrí: “O próprio processo de escrita foi um exercício colaborativo e plural, no qual procurámos refletir a diversidade de experiências e perspetivas em toda a Europa."
A mensagem final é clara: sem participação cidadã estruturada, não haverá recuperação dos oceanos. Para as organizações da sociedade civil, este é o momento de reclamar protagonismo — e de exigir que as políticas europeias reconheçam o valor do seu trabalho diário no terreno.




