A investigação do CCMAR estende-se muito para além da costa algarvia. Do Atlântico temperado ao Oceano Antártico, os nossos investigadores procuram responder a questões fundamentais sobre o funcionamento dos ecossistemas marinhos — e sobre como estes estão a mudar.
No passado mês de março, dois investigadores do CCMAR regressaram da Antártida, depois de participarem em campanhas científicas distintas, mas complementares. Em comum, trouxeram amostras, dados e novas perspetivas sobre alguns dos ambientes mais extremos e sensíveis do planeta.
Trabalhar na Antártida é, por si só, um exercício de colaboração internacional. Sem uma base própria, Portugal integra-se em infraestruturas de outros países, tornando estas campanhas momentos privilegiados para reforçar parcerias científicas. Foi o caso de Pedro Guerreiro, que desenvolveu o seu trabalho a partir da Base Escudero, no Chile, e de Caio Ribeiro, cuja equipa operou a partir da estação chinesa Great Wall, na ilha King George.
Quando a adaptação pode tornar-se uma vulnerabilidade
No âmbito do projeto COOLFISH, Pedro Guerreiro e José Teixeira, aluno do Mestrado em Biologia Marinha que integrou a equipa, focaram-se nos peixes antárticos e nas suas adaptações únicas ao frio extremo. Algumas destas espécies desenvolveram proteínas anticongelantes que impedem a formação de gelo nos tecidos, outras perderam completamente a hemoglobina, tornando o sangue transparente. Ambas as soluções evolutivas são raras e contribuem para a sobrevivência destes peixes em águas cuja temperatura oscila entre -2ºC e 4ºC.
Mas será que esta caraterística, que durante milhões de anos foi uma vantagem, pode tornar-se uma fragilidade? O projeto, em colaboração com o CIIMAR e parceiros internacionais, procura perceber até que ponto estas adaptações são reversíveis ou limitam a capacidade de resposta a um oceano em rápida mudança e em aquecimento. Entre as questões em estudo está o funcionamento de rins aglomerulares, ou seja, que não possuem sistema de filtração, o que contribui para evitar a perda das proteínas anticongelantes.
Através da recolha de larvas e juvenis, análises genómicas e experiências com variações ambientais, a equipa procura compreender os limites da adaptação destes peixes antárticos. Este conhecimento não é só essencial para compreender a biologia e a evolução destes peixes e antecipar o impacto das alterações climáticas no Oceano, mas também tem um potencial biotecnológico significativo, uma vez que algumas das suas caraterísticas espelham condições humanas (como anemia ou baixa densidade óssea), o que potencialmente os torna excelentes modelos para investigação biomédica.
Onde o oceano revela os primeiros sinais de mudança
Em paralelo, a expedição que Caio Ribeiro integrou, no decurso do projeto POLAR-BIOMAP, centrou-se na resposta dos ecossistemas polares às alterações climáticas. Na região da ilha King George, a equipa realizou campanhas de amostragem costeira e offshore, analisando desde comunidades de fitoplâncton até parâmetros físico-químicos da água.
O objetivo é compreender de que forma fatores como o aumento da temperatura e a acidificação do oceano afetam a produtividade primária, os ciclos biogeoquímicos e a estabilidade das redes tróficas. Ao todo, foram realizadas dez estações de amostragem, combinando recolha de água, plâncton e medições in situ, complementadas por análises laboratoriais e modelação ambiental.
Esta abordagem integrada cruza oceanografia química, ecologia microbiana e ecotoxicologia e permite identificar possíveis pontos de rutura em ecossistemas altamente sensíveis, com implicações que se estendem muito para além das regiões polares.
O que a Antártida nos diz sobre o nosso futuro
Apesar da distância geográfica, o conhecimento gerado nestas expedições tem relevância direta para outras regiões, incluindo Portugal. Os polos funcionam como sentinelas das alterações climáticas, onde mudanças ambientais se manifestam de forma mais rápida e intensa.
Ao estudar os limites da vida em condições extremas, os investigadores do CCMAR contribuem para uma compreensão mais global do oceano e para a antecipação de cenários futuros que poderão também afetar os ecossistemas costeiros do Atlântico.




