Com início em 2020 e finalizado em junho de 2025, as conclusões do projeto ICHTHYS (OptImization of novel value CHains for fish and seafood by developing an integraTed sustainable approacH for improved qualitY, safety and waSte reduction) foram destacadas na plataforma oficial da Comissão Europeia para a disseminação de resultados de projetos financiados por programas europeus.
Liderado pelo CCMAR e apoiado pelo programa Marie Skłodowska-Curie Actions (MSCA), este projeto reuniu parceiros académicos e industriais de toda a Europa para melhorar a qualidade e a segurança dos produtos do mar, reduzindo simultaneamente os custos ao longo da cadeia de valor.
A indústria dos produtos do mar é essencial para a economia europeia, representam um dos recursos alimentares mais valiosos da Europa, mas também um dos mais delicados. Manter a frescura e a segurança do peixe e do marisco, do mar até à mesa, e eliminar o desperdício, é um grande desafio para produtores, investigadores e consumidores. Com inovações no processamento e na embalagem, o projeto ICHTHYS teve o seu focou na qualidade da cadeia de valor, na segurança alimentar e na eficiência económica deste setor crítico.
Como podemos tornar o peixe e o marisco mais seguro, fresco e sustentável, desde o oceano até ao prato?
Os estudos apontam que até 10% do desperdício alimentar ocorre durante o transporte. Quando os camiões frigoríficos têm um desempenho abaixo do esperado, o produto deteriora-se. Por isso, o ICHTHYS desenvolveu uma solução simples para enfrentar este problema.
«A nossa solução envolveu a instalação de sensores de temperatura em camiões frigoríficos (conhecidos como cadeia de frio) e a sua ligação a um programa de aprendizagem automática para transformar os registos de temperatura em estimativas da frescura do pescado», explica o coordenador do projeto, Adelino Canário.
Os novos métodos de processamento, sensores inteligentes e ferramentas de biologia molecular reduzem o desperdício, prolongam a vida útil e reforçam a saúde e a segurança dos produtos do mar. Estas inovações permitem melhorar o valor da cadeia de distribuição do peixe e do marisco.
Embalagens inteligentes que interagem com o conteúdo
Embora as técnicas de aprendizagem automática tenham ajudado a resolver problemas na cadeia de frio, essa não foi a única aplicação de tecnologia inteligente do projeto. O ICHTHYS utilizou análises moleculares para desenvolver filmes de base biológica com componentes ativos que interagem com o alimento. Estes aditivos foram concebidos para inibir o crescimento microbiano, detetar deterioração dos alimentos e fornecer informação sobre o potencial de alergenicidade.
“O conceito de embalagem inteligente do projeto ICHTHYS combina componentes ativos e sensores”, detalha o coordenador do projeto. “Substâncias antimicrobianas e antioxidantes naturais controlam o crescimento microbiano e a oxidação lipídica. Indicadores inteligentes, como integradores de tempo-temperatura, rótulos colorimétricos e biossensores, monitorizam a deterioração do pescado e fornecem atualizações em tempo real sobre a frescura do produto.”
Explorar alternativas não térmicas no processamento pós-colheita
Como o marisco é altamente suscetível à deterioração, o processamento pós-colheita requer tratamentos que inibam reações bioquímicas e o crescimento microbiano. Tradicionalmente, o tratamento térmico é utilizado para inativar micróbios e garantir que o produto é seguro para consumo.
Contudo, o tratamento térmico traz desvantagens: pode causar deterioração nutricional, tem elevado consumo energético e pode alterar o sabor, a cor e a textura do pescado. Por isso, o projeto ICHTHYS explorou abordagens alternativas para o seu processamento que prolongam a vida útil e preservam as qualidades sensoriais do peixe e do marisco.
Entre os métodos testados estavam o processamento a alta pressão (HPP), a desidratação osmótica, os campos elétricos pulsados (PEF) e o plasma frio. Todos esses métodos interrompem a atividade microbiana sem utilização de calor, preservando assim o sabor, a textura e a aparência do produto.
Estas tecnologias são promissoras, mas requerem investimento industrial para adoção em larga escala. Como refere Fanny Tsironi, uma das investigadoras que liderou os estudos:
“A adoção industrial requer recipientes HPP, câmaras PEF, reatores UV pulsados e geradores de plasma, todos integrados em instalações de cadeia de frio e sensores de monitorização em linha”.
Ir além da indústria e dos laboratórios
A indústria, a investigação e os consumidores desempenham um papel fundamental na otimização do setor dos produtos do mar. Sendo um projeto apoiado pela MSCA, o ICHTHYS é intrinsecamente intersetorial. Ao longo da sua execução, foram realizadas 180 atividades com parceiros académicos destacados nas instalações de parceiros industriais e vice-versa.
Precisamente pela sua ligação à sociedade, os resultados do projeto foram também amplamente divulgados por meio de workshops (4), participação em eventos voltados para o público geral, feiras de ciência e atividades várias de disseminação, alcançando mais de 2 mil crianças. Para além de ter chegado a públicos diversificados, foram produzidos 27 artigos científicos e materiais digitais distribuídos pelas redes sociais, o que ampliou significativamente o alcance das comunicações do projeto.

