EURCAW-Aqua é o Centro de Referência da União Europeia para o Bem-Estar dos Animais Aquáticos e no seu novo relatório classifica a prática de atordoamento elétrico no abate dos peixes de aquacultura como ineficaz.
Elaborado em estreita colaboração com o nosso grupo de investigação em bem-estar dos peixes, o relatório escrutinou os equipamentos utilizados neste método, outrora considerado promissor e humano. Através de técnicas avançadas de monitorização com eletroencefalografia, foi possível confirmar a presença de atividade cerebral durante o processo de atordoamento, o que indica que muitos peixes permanecem conscientes. Para o nosso investigador e líder de grupo de investigação, João Saraiva:
“A falta de evidências de que métodos de atordoamento elétrico sejam capazes de deixar os peixes inconscientes imediatamente e por tempo suficiente para garantir o abate sem dor tem consequências sérias - não só do ponto de vista ético, mas também na qualidade do produto final.”
Quando mal executado, este método provoca contrações musculares intensas, levando à libertação de substâncias de stress que comprometem a textura, aparência e qualidade da carne. Além do atordoamento elétrico, também o método de asfixia em gelo foi criticado no relatório, por não cumprir os padrões éticos e legais estabelecidos pela UE.
Como alternativa, o EURCAW-Aqua recomenda o atordoamento por percussão, atualmente o método mais eficaz para induzir inconsciência imediata nos peixes. No entanto, a sua aplicação prática está limitada à produção de salmão do Atlântico, sendo ainda inexistente em escala comercial para espécies mediterrânicas como o robalo e a dourada.
Esta limitação representa um desafio significativo para os produtores, que poderão já ter investido em equipamentos hoje considerados inadequados, mas também uma oportunidade para a indústria tecnológica desenvolver soluções alinhadas com as recomendações da UE, nomeadamente:
- Tecnologias baseadas em eletroencefalografia para monitorização em tempo real;
- Estudos sistemáticos de validação de métodos de atordoamento para todas as espécies cultivadas;
- Indicadores rápidos e fiáveis para detetar perda de consciência.
Garantir investimento em investigação e inovação torna-se, assim, imperativo para dignificar o abate, melhorando a qualidade da produção em aquacultura.
Estas e outras questões relacionadas com o bem-estar animal estarão em debate no XXII Congresso da Sociedade Portuguesa de Etologia. Participe!




