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SPE Congress Group Photo

O XXII Congresso da Sociedade Portuguesa de Etologia (#SPEetol2025), apoiado pelo CCMAR, reuniu cerca de 100 participantes no Campus da Penha da Universidade do Algarve para dois dias de intercâmbio científico centrado no comportamento animal num mundo em mudança. Foram apresentadas aproximadamente 25 comunicações orais e 27 posters, abrangendo animais de água doce, marinhos e terrestres. 

A edição deste ano destacou a amplitude da etologia em Portugal e além-fronteiras, reunindo cientistas em início de carreira e investigadores seniores para discutir bem-estar, cognição, comunicação, impactos climáticos e comportamento social.


Workshop pré-conferência

A reunião foi precedida, no dia 29 de outubro, por um workshop prático liderado por Ásgeir Bjarnason (Star-Oddi), que apresentou aos participantes a utilização de registadores de dados avançados para monitorizar os movimentos e a fisiologia dos animais — uma ferramenta promissora para a investigação etológica.
 


Dia 1 — Bem-estar e comunicação acústica

A conferência teve início a 30 de outubro com comentários da Sociedade Portuguesa de Etologia, seguidos da primeira palestra plenária de Melissa Bateson (Universidade de Newcastle, Reino Unido). A sua palestra demonstrou como os princípios comportamentais podem ajudar a explicar a variação no comportamento alimentar e na fisiologia humana e animal, oferecendo insights sobre por que nos comportamos e até parecemos diferentes sob diferentes perceções de abundância alimentar.

A sessão de abertura, Bem-estar, apresentou reflexões importantes sobre a importância do enriquecimento ambiental e da habituação nos estudos comportamentais. As palestras desta sessão exploraram como o enriquecimento ambiental e a habituação moldam o comportamento e o bem-estar em várias espécies, desde o sargo e o robalo até ao cão-marinho. Os apresentadores também mostraram novas ferramentas, como a análise de aprendizagem profunda para estimativa da postura dos peixes, destacando os avanços no monitoramento comportamental.

A tarde deu lugar à sessão sobre Comunicação Acústica, com destaque para o comportamento mediado pelo som, com pesquisas que abrangeram atividades e acústica de golfinhos-comuns-de-bico-curto (Delphinus delphis), variação em chamados de imploração e reconhecimento de descendentes, stress fisiológico e perda auditiva em peixes, respostas comportamentais ao ruído do tráfego marítimo e respostas coletivas contra predadores sob exposição ao ruído. Juntas, estas palestras destacaram os efeitos generalizados da poluição sonora antropogénica na comunicação e no comportamento entre os taxons.
Uma sessão de pósteres, seguida pela reunião plenária da SPE e um delicioso jantar social, encerraram o dia.


Dia 2 — Sinais, cognição, clima e sociabilidade

O segundo dia começou com as palavras de boas-vindas de Jorge Gonçalves (CCMAR), seguidas de uma palestra plenária de Sandra Trigo (CIBIO, Portugal), que apresentou novas descobertas sobre como as diferenças sexuais na ornamentação são expressas e reguladas nas aves — oferecendo uma visão convincente dos mecanismos evolutivos que moldam as estratégias de sinalização e reprodução. A sua palestra ofereceu uma perspetiva evolutiva sobre como as características sexuais se desenvolvem, as vias fisiológicas que as sustentam e o que elas revelam sobre a seleção.

A primeira sessão temática, Evolução e Mecanismos de Expressão de Sinais, centrou-se no desenvolvimento e função das características de sinalização. Os oradores discutiram como os sistemas de comunicação evoluem, como os sinais são produzidos e percebidos e o que revelam sobre a aptidão e as interações entre espécies. As palestras exploraram como os sinais surgem, variam e influenciam a ecologia das espécies.

Após o intervalo da manhã, o foco voltou-se para a cognição. Esta sessão apresentou trabalhos sobre a evolução da cognição em peixes — destacando variações entre taxas e ambientes, e como as características cognitivas influenciam a sobrevivência e a tomada de decisões. A sessão destacou a relevância ecológica da perspetiva mental dos animais e como o contexto ambiental molda a flexibilidade comportamental.

A última sessão da manhã, Comportamento num mundo em mudança, voltou a atenção para as mudanças globais, apresentando estudos sobre como temperaturas extremas, ondas de calor e poluição luminosa artificial influenciam o comportamento. Estas palestras sublinharam a vulnerabilidade dos processos comportamentais às pressões climáticas e à urbanização. Coletivamente, estes estudos enfatizaram como as mudanças globais estão a reorganizar os processos comportamentais, com consequências para a sobrevivência e o funcionamento dos ecossistemas.

A última plenária, ministrada por José Ricardo Paula (MARE / Universidade de Lisboa), explorou o comportamento complexo através da lente do mutualismo de limpeza — um campo em que a dinâmica comportamental revela a compreensão da cognição, cooperação e negociação entre limpadores e clientes. Esta discussão desencadeou um debate animado e instigante sobre a capacidade dos peixes de serem autoconscientes.

O congresso foi encerrado com a sessão Socialidade e Interações Comportamentais, na qual os investigadores examinaram como a estrutura social molda o comportamento ao longo do tempo e como os indivíduos interagem em contextos dinâmicos de grupo. A palestra final da conferência foi proferida por Peter McGregor (ISPA), com uma atualização sobre a Acta Ethologica, revisando os desenvolvimentos da revista ao longo do último ano.


Reconhecer a excelência

O congresso deste ano também celebrou as contribuições de estudantes que mais se destacaram
🥇 Prémio Vítor Almada — Melhor Apresentação
Pedro Santos, “O ruído molda a resposta coletiva contra predadores”
🥈 Menção honrosa — Apresentação oral de estudante
Antony Pieters, «A influência dos comportamentos iniciados pelos filhotes na dinâmica do grupo de golfinhos comuns (Delphinus delphis) ao longo da costa sul de Portugal»
🏆 Melhor apresentação de poster
João Grave, «Efeitos indiretos dos gobies limpadores no pastoreio de peixes e na estrutura da comunidade bentônica»


Esforço coletivo

O sucesso do #SPEetol2025 foi possível graças ao empenho da sua comissão organizadora, do Fish Ethology and Welfare Group e de todos os apresentadores, expositores e participantes que contribuíram para dois dias de intercâmbio científico.

O Congresso mostrou a diversidade e a qualidade da investigação comportamental que se realiza em Portugal e destacou como a etologia moderna faz a ponte entre as abordagens laboratoriais e de campo, abrangendo o bem-estar, a comunicação, a cognição e as alterações ambientais.

O CCMAR congratula-se por ter apoiado esta edição da conferência e aguarda com expectativa futuras oportunidades para reforçar o diálogo, a colaboração e a inovação no estudo do comportamento animal.