Passar para o conteúdo principal

FECHAR

navio

Um novo estudo internacional, publicado na revista Science, revela quando e como começaram as rápidas mudanças climáticas que marcaram os últimos milhões de anos da história da Terra. Baseado em sedimentos recolhidos ao largo da costa portuguesa, na Margem Ibérica, no âmbito de uma campanha científica rara e de grande escala, o trabalho mostra que o início da glaciação extensa no Hemisfério Norte, há cerca de 2,7 milhões de anos, coincidiu com o surgimento das primeiras oscilações climáticas rápidas, conhecidas como variabilidade climática milenar.

O estudo baseia-se na análise de sequências sedimentares marinhas recolhidas ao largo de Sines, na Margem Ibérica, durante a Expedição 397 do Programa Internacional de Descoberta dos Oceanos (IODP), dedicada ao estudo do paleoclima desta região. Os sedimentos foram recuperados na zona conhecida como Montanha dos Príncipes de Avis, um local excecional pela sua capacidade de registar variações climáticas com grande detalhe temporal. Ao passo que os núcleos de gelo da Gronelândia e da Antártida registam essas variações apenas até cerca de 800 mil anos, os sedimentos da Margem Ibérica possibilitam reconstruí-las muito mais atrás no tempo, até ao início do Pleistocénico. 

map
fatima abrantes

"A estreita plataforma continental portuguesa permite que o material terrestre chegue rapidamente ao oceano profundo, tornando esta margem num dos poucos locais do mundo onde é possível estabelecer uma ligação detalhada entre os registos marinhos, continentais e de gelo".

Fátima Abrantes, investigadora do CCMAR

Até agora, os cientistas sabiam que os grandes mantos de gelo começaram a expandir-se no hemisfério norte há cerca de 2,7 milhões de anos e que, durante os ciclos glaciais mais recentes, o clima sofreu mudanças abruptas e rápidas. A grande questão era compreender se essas oscilações estavam relacionadas com o crescimento dos mantos de gelo. Este estudo mostra que os primeiros sinais de variabilidade climática milenar surgiram precisamente no início dessa glaciação.

Para identificar sinais de instabilidade climática associados à presença de detritos transportados por icebergs no Atlântico Norte, a equipa recorreu a análises geoquímicas de alta resolução, incluindo fluorescência de raios X (XRF), um elemento chave do estudo. Esta análise permitiu identificar variações químicas muito subtis nos sedimentos e, assim, reconstruir alterações ambientais ocorridas há milhões de anos com grande precisão.

Os resultados indicam que, a partir desse momento, estas oscilações rápidas passaram a repetir-se de forma sistemática durante os períodos glaciais, tornando-se uma característica intrínseca do clima do Quaternário. Ao libertarem grandes volumes de gelo e água doce, estes sistemas alteravam a circulação oceânica e o transporte de calor, desencadeando respostas climáticas rápidas e abruptas.

Esta investigação reforça a importância da Margem Ibérica (e do trabalho desenvolvido por instituições portuguesas) como um dos poucos contextos no mundo capazes de estabelecer uma ligação detalhada entre registos marinhos, continentais e de gelo polar, contribuindo assim de forma decisiva para a compreensão do funcionamento do sistema climático da Terra.

 


As análises do Sítio 1586 foram realizadas no IPMA, mais concretamente nos laboratórios EMSO-GOLD da Divisão de Geologia Marinha, com o apoio do grupo de Paleoceanografia e Paleoclima, que integra o Grupo de Oceanos e Alterações Climáticas do CCMAR.

 

Referências: