Nos primeiros seis dias de outubro, mais de 30 investigadores do Centro de Ciências do Mar do Algarve (CCMAR), em parceria com a Fundação Oceano Azul e o Oceanário de Lisboa, percorreram o Parque Natural Marinho do Recife do Algarve – Pedra do Valado (PNMRA-PV), a bordo do navio Santa Maria Manuela. A campanha marca o primeiro levantamento científico multidisciplinar realizado desde a criação oficial do Parque, em janeiro de 2024.
Entre Albufeira e o Farol de Alfanzina estende-se um dos maiores recifes costeiros de Portugal, um ecossistema com mais de mil espécies identificadas — algumas raras, ameaçadas e únicas no território continental. Agora oficializado como parque natural marinho, torna-se o primeiro criado no século XXI, em Portugal.
Ecossistema de valor único em Portugal com uma elevada pressão humana
O CCMAR trabalha nesta área há mais de 20 anos. Em 2008 concluiu o primeiro mapeamento alguma vez realizado entre a Albufeira e a Foz do Arade, incluindo a Baía de Armação de Pêra. Rapidamente se confirmou a existência de um recife costeiro riquíssimo, com habitats prioritários como pradarias de ervas marinhas (Cymodocea nodosa), gorgónias (um género de corais moles) e bancos de algas calcárias (rodólitos ou maerl). Estas algas vermelhas calcárias crescem poucos milímetros por ano, funcionando como importantes reservatórios naturais de carbono — tal como as pradarias. Este é o único local de Portugal continental onde estes bancos de maerl existem, sustentando enorme diversidade biológica e contribuindo para o sequestro de carbono azul, essencial para reduzir a concentração de dióxido de carbono na atmosfera.
A par dessa riqueza, existe uma intensa utilização humana, particularmente por parte dos setores do turismo e pescas. Trata-se de uma das área marinha protegida no mundo com mais visitas, cerca de um milhão de visitas anuais ao mar registadas em apenas quatro meses (dados de 2018, com tendência crescente) e com maior número de licenças de pesca (>200/150 km²).
A força da comunidade
Face a este cenário, a única forma de avançar na proteção do Recife da Pedra do Valado seria envolver a comunidade. Em 2018, o CCMAR, Fundação Oceano Azul, Município de Silves, Associação de Pescadores de Armação de Pêra e entidades parceiras iniciaram um processo participativo para criar a primeira área de interesse comunitário em Portugal, que obteve o apoio de todas as entidades públicas regionais (e.g. CCDR Algarve, ICNF/Algarve, DGPA, APA/Algarve, RTA, AMAL, municípios de Silves, Lagoa e Albufeira), associações de pescadores, empresas marítimo-turísticas, universidades, centros de investigação, ONGs e outros. No total, mais de 80 entidades uniram esforços, com o apoio de três Ministros do Ambiente e um do Mar, assim como dos principais partidos com assento parlamentar na altura (PS, PSD, CDU, BE).
Atualmente, é uma das primeiras áreas marinhas do mundo com sistema de fiscalização integrado (em fase de instalação), com GPS de seguimento em tempo real de embarcações de pesca e de videovigilância em terra, que permite seguir em tempo real todas as embarcações, incluindo à noite, por infravermelhos. É ainda a primeira área marinha protegida no país cuja criação incluiu um mecanismo de compensações aos pescadores — um modelo pioneiro também a nível internacional.
Este processo integrou um estudo socioecológico e económico de referência para futura monitorização, com entrevistas aos utilizadores da zona.
Daqui resultou o delineamento de mapas de habitats prioritários e mapas das atividades humanas, fundamentais para propor um zonamento com diferentes níveis de proteção e compatibilização de usos.
Atualmente, é uma das primeiras áreas marinhas do mundo com sistema de fiscalização integrado (em fase de instalação), com GPS de seguimento em tempo real de embarcações de pesca e de videovigilância em terra, que permite seguir em tempo real todas as embarcações, incluindo à noite, por infravermelhos. É ainda a primeira área marinha protegida no país cuja criação incluiu um mecanismo de compensações aos pescadores — um modelo pioneiro também a nível internacional.
Seis dias de investigação intensiva
Mas o trabalho continua. O objetivo desta campanha científica foi claro: agora que a área marinha está protegida e oficialmente declarada como Parque Natural, é essencial avaliar o seu estado ecológico e recolher dados para monitorizar e acompanhar os resultados da proteção.
Ao longo de seis dias, o CCMAR, com o apoio da Fundação Oceano Azul, ICNF, SPEA e da AIMM, mobilizou equipamento técnico e especialistas com experiência acumulada de vários anos na região. Recorreu a mais de nove técnicas de monitorização e mapeamento, que incluíram 70 mergulhos (mais de 50 horas de imersão) e 200 lançamentos para recolha de dados: amostras de sedimento e água, gravações subaquáticas, entre outras. A equipa trabalhou de forma integrada para realizar um dos maiores levantamentos científicos locais num curto espaço de tempo.
A análise dos dados continua em curso, mas já foram registadas mais de 40 espécies novas para a área do Parque. Para Jorge Gonçalves, coordenador científico do CCMAR, “estes registos reforçam a importância ecológica da Pedra do Valado e mostram que o Parque continua a revelar surpresas, mesmo após anos de estudo”.
Um retrato do futuro
Esta é a primeira área marinha protegida do país que procura uma gestão colaborativa com entidades regionais, num modelo mais avançado de cogestão atual. A campanha científica constitui o primeiro passo para implementar uma gestão baseada em ciência e participação ativa.
“O trabalho que realizámos durante esta campanha vem complementar a informação científica existente e criar uma base sólida para apoiar o futuro programa especial e regulamento de gestão do Parque, previsto para breve. Estes dados serão também uma referência essencial para, daqui a alguns anos, avaliar os resultados da sua implementação”
Tecnologia e ciência lado a lado
Para compor uma visão completa, um verdadeiro “360º”, do Parque, as técnicas que o CCMAR utilizou incluíram:
Câmaras subaquáticas com isco que atraem espécies piscívoras, muitas de interesse comercial. As imagens permitem estimar tamanho e biomassa, indicadores de proteção importantes, pois quanto maior o tamanho médio das espécies, maior tende a ser a recuperação ecológica da área.
Recolha de sedimentos e macroinvertebrados de pequeno porte, excelentes indicadores ecológicos por serem residentes e sensíveis a alterações ambientais.
As metodologias aplicaram-se entre 30 e 50 metros de profundidade, reforçando o inventário de biodiversidade dos fundos marinhos (bentónica).
Realizada por equipas do CCMAR, da SPEA - Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves e da AIMM - Associação para a Investigação do Meio Marinho, através de transectos de 300 metros.
Os membros dedicaram-se a registar os avistamentos e comportamentos destas espécies por toda a área protegida, através de transetos de 300 metros, com especial destaque para o aparecimento de golfinhos-de-Risso (Grampus griseus).
Observação direta e indireta (por transmissão) e recolha de dados para monitorizar habitats prioritários, colecionar amostras e substituir recetores de telemetria acústica. Esta última técnica permite identificar a presença de espécies altamente móveis e que tenham sido marcadas, como pargos, robalos, sargos, raias.
O veículo mediu, em tempo real, parâmetros como oxigénio, pH, temperatura, condutividade, sólidos dissolvidos totais, clorofila e ficoeritrina e salinidade ao longo de seis quilómetros, criando o primeiro mapa oceanográfico da zona de proteção total.
Vídeo de Destaque
Mais informações:
- Documentos resumo referentes à criação da área marinha protegida com interesse comunitário (AMPIC)
- Artigo científico publicado: Co-design of a marine protected area zoning and the lessons learned from it
- Resolução do Conselho de Ministros n.º 1/2024, de 5 de Janeiro sobre a criação do Parque Natural Marinho do Recife do Algarve




