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Gorgónias - Scientific Diving Centre
Publicado a
Keywords
marine protected areas
climate change
adaptation

Criado em 2018, o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (PNSACV) é um dos territórios marinhos mais biodiversos e extensos do país, com cerca de 1900 espécies identificadas, incluindo dezenas com estatuto de “ameaçadas” e várias endémicas. Apesar da sua importância ecológica, até recentemente existia pouca informação integrada que permitisse antecipar como o aquecimento do oceano poderá afetar os seus habitats, espécies e atividades humanas associadas.

Foi para responder a essa lacuna que investigadores do Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve (CCMAR/UALG) desenvolveram um conjunto de trabalhos científicos que combinam avaliação de vulnerabilidade climática, monitorização no terreno e planeamento de adaptação, criando uma base inédita para uma gestão mais informada e resiliente do parque marinho.

Um dos pilares deste trabalho foi a realização de uma avaliação de vulnerabilidade climática, que integrou dimensões ecológicas e socioeconómicas para analisar como diferentes componentes do PNSACV poderão responder às alterações climáticas até ao final do século. Com base em cenários climáticos futuros amplamente utilizados pela comunidade científica (RCP 4.5 e RCP 8.5), a análise identificou riscos crescentes associados ao aquecimento do oceano e à ocorrência de ondas de calor marinhas, particularmente para habitats sensíveis como os recifes coralígenos e as gorgónias formadoras de recife, bem como para atividades humanas dependentes destes ecossistemas.

Paralelamente, entre 2024 e 2025, o CCMAR iniciou protocolos de monitorização subaquática no terreno. Estes trabalhos incluíram:

  • a avaliação da saúde de gorgónias e eventos de mortalidade em massa,
  • o acompanhamento de indicadores de peixes sensíveis ao aquecimento,
  • e a instalação de registadores de temperatura para caracterizar a variabilidade térmica local. 

Em conjunto, estas ações funcionam como um sistema de alerta precoce ao impacto climático. 
 

Do conhecimento à planificação

Com base nos resultados da avaliação de vulnerabilidade e da monitorização no terreno, o CCMAR coordenou o desenvolvimento de um Plano Preliminar de Adaptação às Alterações Climáticas para o Parque. Este plano traduz evidência científica em propostas concretas de ação, organizadas em áreas como capacitação e sensibilização, proteção e restauro, investigação e monitorização, instrumentos económicos, governação e soluções tecnológicas.

Para garantir que estas propostas refletem as realidades locais, foi realizado um inquérito online a alguns stakeholders, envolvendo gestores, investigadores, pescadores, operadores turísticos, autarquias e organizações da sociedade civil. As respostas permitiram priorizar medidas de adaptação com maior apoio e relevância percebida para o futuro do parque marinho.

No seu conjunto, estes trabalhos constituem o primeiro referencial integrado para uma gestão do Parque informada pelo clima. Embora assumidamente preliminares, e a necessitar ainda de um maior envolvimento dos stakeholders, os resultados oferecem uma base científica robusta para futuras revisões dos planos de gestão, o reforço da monitorização e processos de adaptação mais participativos.

Este trabalho foi desenvolvido no âmbito do projeto MPA4Change, financiado pelo programa Interreg Euro-MED, e ilustra como a ligação entre ciência, monitorização contínua e envolvimento dos atores locais é essencial para preparar as áreas marinhas protegidas para os desafios de um oceano em rápida mudança.