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Cachalote arrojado
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cetacean stranding
marine conservation

Durante décadas, os arrojamentos de cetáceos na costa algarvia foram sendo registados de forma irregular, limitando a compreensão do que realmente acontecia com estes animais. Hoje, graças ao trabalho continuado da Rede de Arrojamentos do Algarve (RAAlg), esses registos dispersos dão origem ao primeiro diagnóstico científico integrado sobre a mortalidade de cetáceos na região ao longo de 46 anos, abrindo caminho a decisões de conservação mais informadas.

A criação e reativação da Rede de Arrojamentos do Algarve (RAAlg) foi determinante para este avanço. Integrada numa rede nacional, e coordenada pelo CCMAR, a RAAlg tem como missão assegurar uma resposta regional contínua, com uma equipa técnica disponível 24 horas por dia ao longo de toda a costa algarvia. Para além do registo sistemático de ocorrências, a recolha de dados biológicos e a realização de necrópsias, levadas a cabo pela nossa equipa, permitiram transformar eventos isolados numa base de conhecimento consistente ao longo do tempo.

Reunindo informação desde a década de 1970, o estudo analisou, pela primeira vez, mais de mil arrojamentos de cetáceos, de forma integrada: padrões temporais, espaciais, biológicos e causas de morte, com recurso a modelos estatísticos robustos. No total, foram identificadas 19 espécies de cetáceos, sendo o golfinho-comum (Delphinus delphis) a espécie mais frequentemente arrojada, enquanto a baleia-anã (Balaenoptera acutorostrata) foi a espécie de baleia mais encontrada.

Um dos resultados mais marcantes mostra que a implementação de uma rede dedicada de monitorização alterou significativamente o conhecimento disponível. 

Jan Hofman

Desde a operacionalização da RAAlg, a capacidade de identificar espécies e determinar causas de morte aumentou de forma substancial e o número de registos duplicou, revelando uma realidade anteriormente subestimada.

Jan Hofman, primeiro autor do estudo e coordenador de campo

Longe de serem eventos aleatórios, o levantamento dos arrojamentos permitiu desvendar uma lógica clara. Mais do que ocorrências ocasionais, as espécies frequentemente encontradas coincidem com as mais abundantes na região, o que revela um impacto real destes episódios na ecologia dos cetáceos do Algarve.

De facto, cerca de 45% dos cetáceos, encontrados em condições que permitiram análise detalhada, apresentavam evidências de mortalidade associada à captura acidental da pesca, como por exemplo, o animal ficar preso em artes de pesca. 

Este estudo também permitiu definir um mapa da mortalidade com contornos exatos: zonas como o Cabo de Santa Maria, Portimão–Lagos e Sagres emergem como áreas críticas, onde fatores naturais e pressão humana se sobrepõem. 

Ana Marçalo

A evidência recolhida demonstra a necessidade urgente de reforçar medidas de gestão das pescas e estratégias de mitigação que reduzam capturas acidentais e protejam a megafauna marinha.

Ana Marçalo, investigadora do CCMAR e coordenadora do estudo

A mortalidade deixa assim de ser um fenómeno difuso e passa a estar associada a contextos concretos e, por isso, potencialmente mitigáveis. A presença significativa de indivíduos juvenis entre os animais arrojados reforça ainda a dimensão do problema, apontando para possíveis impactos na renovação das populações.


Ao mesmo tempo, este trabalho mostra que não existe uma única explicação nem uma única solução. Diferentes espécies apresentam padrões distintos de ocorrência e mortalidade, refletindo comportamentos e habitats específicos. Esta variabilidade aponta para a necessidade de medidas de gestão mais ajustadas à realidade ecológica de cada espécie e de cada zona costeira.


Mais do que descrever o passado, este trabalho estabelece uma base sólida para o futuro. Ao transformar décadas de dados em conhecimento acionável, evidencia o papel essencial da monitorização contínua e posiciona a Rede de Arrojamentos como uma infraestrutura científica crítica para apoiar políticas de conservação, gestão costeira e mitigação de impactos no oceano
 


Formulário e contactos, 

em caso de avistamento de arrojamentos: