Um estudo liderado pelo Centro de Ciências do Mar do Algarve (CCMAR) revela que um extrato de uma microalga marinha, Skeletonema costatum, pode vir a tornar-se uma nova arma contra a osteoporose. A descoberta é especialmente relevante porque esta microalga está em aprovação para consumo humano na Europa, o que abre a porta ao desenvolvimento de suplementos alimentares naturais com impacto real na saúde óssea: uma possível alternativa às atuais terapias farmacológicas.
O trabalho, conduzido por Alessio Carletti, no âmbito do seu doutoramento sobre a biologia de extratos marinhos com efeitos anti-osteoporóticos, foi supervisionado por Paulo Gavaia, investigador principal do CCMAR, e em parceria com a Universidade do Algarve, o GreenCoLab, S2AQUAcoLAB, e ABC – Algarve Biomedical Center. O estudo recorreu a células em cultivo e modelos animais, incluindo o peixe-zebra (Danio rerio) e o peixe medaka (Oryzias latipes), dois organismos amplamente usados em investigação biomédica por partilharem genes, associados a muitas doenças, semelhantes aos do ser humano.
O desafio da osteoporose
A osteoporose é uma doença crónica que afeta milhões de pessoas em todo o mundo e resulta de um desequilíbrio no mecanismo natural do osso. “O tecido ósseo está sempre a renovar-se, a destruir-se e a reconstruir-se continuamente. Este ciclo é saudável e necessário”, explica Paulo Gavaia. “O problema começa quando a destruição do osso passa a ser mais rápida do que a sua regeneração.” O sistema imunitário está no cerne da questão, pois orienta a comunicação entre as células ósseas e age como um tradutor que as ajuda a coordenar-se. Em condições como a osteoporose, o problema pode não estar nas próprias células ósseas, mas numa falha de comunicação que perturba a forma como as mesmas interagem.
Os tratamentos atuais funcionam apenas num dos lados desta balança: ou bloqueiam a degradação óssea, ou estimulam a formação do osso. Como as células ósseas comunicam entre si, ao bloquear as células que degradam o osso, interrompem a comunicação entre as células e, por sua vez, as células que os constroem também ficam mais lentas.
“Ao agirem unilateralmente, esses medicamentos são eficazes durante um período limitado. Depois disso, muitos começam a ter efeitos negativos e os tratamentos têm de ser interrompidos, retomados mais tarde ou substituídos, o que mostra que ainda não temos uma solução verdadeiramente sustentável”,
Da ciência marinha ao consumo
A equipa isolou um extrato rico em compostos bioativos da microalga, Skeletonema costatum, e avaliou os seus efeitos em três abordagens experimentais: (i) analisou a regeneração óssea em peixe-zebra; (ii) testou um modelo genético de osteoporose induzida em peixe medaka; (iii) e examinou uma linha celular de macrófagos de ratinhos, células do sistema imunitário que dão origem às células que degradam o osso, chamadas de osteoclastos.
Os resultados foram notáveis e revelaram algo surpreendente. O extrato da microalga gerou um reequilíbrio do metabolismo ósseo sem interromper a comunicação saudável entre as células ósseas, demonstrando uma proteção contra a perda óssea associada à osteoporose e uma redução da ativação excessiva das células imunitárias.
Em suma, o extrato não se comporta como os medicamentos atuais e não interrompe o processo natural do metabolismo ósseo; pelo contrário, regula os mecanismos imunitários que o afetam e ajuda o corpo a recuperar o equilíbrio ideal, abrindo caminho para uma abordagem terapêutica mais natural, preventiva e sustentável.
O aspeto mais promissor desta descoberta é a viabilidade de aplicação. A Skeletonema costatum já é cultivada na Europa e está em aprovação para consumo humano, o que significa que o caminho para o desenvolvimento de nutracêuticos, como suplementos alimentares funcionais, poderá ser consideravelmente mais rápido do que novos fármacos.
Os nossos resultados abrem a porta a estratégias terapêuticas integrativas. Em vez de suprimir o metabolismo ósseo, ajudamos o corpo a recuperar o equilíbrio, algo raro nos tratamentos convencionais
Uma linha de investigação de referência no Algarve
Este trabalho representa mais uma prova de que o Oceano pode ser uma fonte valiosa de compostos bioativos com impacto na saúde humana. Os resultados alinham-se com a crescente tendência por abordagens holísticas, nutracêuticas e menos invasivas para doenças crónicas associadas ao envelhecimento.
Ainda há caminho pela frente: é necessário isolar e caraterizar os compostos ativos, otimizar dosagens e testar os mecanismos moleculares. Mas uma porta já foi aberta, e com o apoio de entidades como o CCMAR, a Universidade do Algarve, S2AQUAcoLab, GreenCoLab e ABC, esta linha de investigação consolida-se no Algarve como referência para uma nova geração de bioprodutos marinhos.
Mais informações:
- O estudo foi publicado recentemente na Frontiers in Immunology e integra o trabalho de doutoramento de Alessio Carletti no CCMAR e na Universidade do Algarve.




