Ao longo da sua tese de doutoramento, Gil Martins dedicou-se a compreender como a ativação do sistema imunitário afeta a estrutura e a função do esqueleto de peixes, recorrendo ao peixe-zebra como modelo experimental. O objetivo foi duplo: estudar os efeitos da resposta imune no esqueleto e propor um modelo útil para investigar doenças que envolvem a interação entre o sistema imunitário e o sistema esquelético, uma área chamada osteoimunologia.
“Havia muito pouco conhecimento sobre como a resposta imunitária influencia o esqueleto dos peixes, e isso pode ser essencial tanto para a biomedicina como para a aquacultura,” explica Gil.
Durante o seu trabalho, demonstrou que a exposição contínua a lipopolissacarídeos - componentes de bactérias - desencadeia um aumento da reabsorção óssea, resultando em alterações na estrutura e tamanho das escamas dos peixes. Estas alterações foram documentadas anteriormente em mamíferos, mas estavam por explorar em modelos aquáticos. Além disso, a investigação incluiu a procura de compostos naturais presentes em microalgas, como é o caso dos glicolipídicos, com potencial para mitigar os efeitos da estimulação imune, apontando novas vias terapêuticas para doenças osteoimunes.
“Mostrámos que as escamas do peixe-zebra podem ser utilizadas como modelo biomédico para estudar a interação entre o sistema imunitário e o sistema esquelético, e também como ferramenta de triagem de moléculas bioativas,” resume o investigador.
O projeto contou com o apoio do CCMAR, onde Gil teve acesso a infraestruturas como as unidades de peixe-zebra, microscopia e cultura celular. Contou ainda com colaborações com a empresa Necton S.A., fornecedora de pasta de microalgas de alta qualidade, e com o Departamento de Química da Universidade de Aveiro, essencial para o isolamento de frações glicolipídicas, presentes nas microalgas.
Agora que concluiu a sua tese, Gil pretende continuar a investigar o papel da estimulação imune no desenvolvimento de anomalias esqueléticas em peixes de aquacultura - um dos grandes desafios do setor, com impacto direto na saúde e qualidade dos organismos produzidos.
“Esta investigação pode ajudar a compreender e eventualmente prevenir algumas das principais limitações associadas à produção intensiva de peixe,” conclui.
Embora os artigos científicos com os resultados obtidos ainda estejam em fase de avaliação, espera-se que venham a contribuir significativamente para o avanço do conhecimento na interface entre imunologia, biologia óssea e biotecnologia marinha.




