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macroalgas
Publicado a
Keywords
climate change
aquaculture
macroalgae
open science

Um novo artigo científico liderado por Cícero Alves-Lima, investigador do CCMAR / Universidade do Algarve, apresenta uma nova metodologia que pode transformar a forma como as macroalgas são estudadas em laboratório. 

As macroalgas, apesar da sua importância ecológica e económica, são notoriamente difíceis de investigar em laboratório. Apresentam uma grande diversidade de formas, ciclos de vida complexos e alta taxa de contaminação por microorganismos, o que torna o isolamento de linhagens lento, manual e pouco replicável. Como resultado, muitos estudos baseiam-se em amostras reduzidas e apresentam limitações estatísticas.

O trabalho desenvolvido por uma equipa, maioritariamente do CCMAR, responde diretamente a este desafio. Ao sistematizar técnicas como diluição e fragmentação controlada de biomassa de algas com a aplicação de processamento de imagens de fluorescência da clorofila, a equipa conseguiu otimizar um conjunto de protocolos que lhes permitiu isolar, analisar e caraterizar centenas de linhagens de macroalgas de forma rápida, rigorosa e acessível. 

A nova abordagem quantitativa e de elevado rendimento chama-se SAMMBA (Seaweed Automatable Microplate Microscopy for Breeding Approaches). Através desta, é agora possível isolar pelo menos 130 novas linhagens em quatro microplacas experimentais e quantificar com elevada reprodutibilidade a taxa crescimento em mais de 400 microculturas.

Um dos aspetos centrais deste método é a utilização da fluorescência da clorofila como indicador de crescimento e de desempenho fisiológico. Este sinal, presente em todas as algas, pode ser medido com recurso a microscópios de fluorescência convencionais, sem necessidade de corantes, modificações genéticas ou equipamentos altamente especializados. Tal torna o protocolo não só preciso, mas também amplamente acessível a diferentes laboratórios.

Segundo Cícero Alves-Lima, esta abordagem facilita tanto os estudos de biologia fundamental como as aplicações práticas. O investigador destaca ainda que o método está a ser adaptado para selecionar linhagens mais adaptadas à aquicultura e mais tolerantes a ondas de calor em espécies de grande relevância para Portugal, como a Laminaria e a Ulva, num contexto de aquecimento dos oceanos.

cicero

Agora é possível comparar taxas de crescimento e respostas fisiológicas com muito mais precisão e em centenas de linhagens em simultâneo

Outro pilar do trabalho é o compromisso com a ciência aberta. De acordo com os princípios FAIR (Findable, Acessible, Interoperable and Reproducible), todos os dados brutos, scripts de análise e protocolos associados ao SAMMBA foram disponibilizados, garantindo que o método possa ser reproduzido, adaptado e melhorado por outros investigadores.

Mais do que uma nova compilação de protocolos, o SAMMBA representa uma mudança de paradigma na ficologia experimental. Ao transformar o isolamento e a fenotipagem de macroalgas num processo escalável e quantitativo, este método estabelece as bases para biobancos mais eficientes, estudos mais robustos, estratégias inovadoras de conservação e uma melhoria com impacto numa aquacultura mais sustentável. 

O Biobanco do CCMAR, vinculado ao projeto Biobanco Azul Português, financiado pelo PRR, já está a usar o SAMMBA para aumentar sua coleção e selecionar estirpes mais resilientes à mudanças climáticas antropogênicas.