Dois novos produtos desenvolvidos por investigadores do CCMAR foram destacados pela Comissão Europeia no Innovation Radar. O projeto DiBaN (Linking Intestinal Bacteria and Host Metabolism to Tackle Type 2 Diabetes with Novel Food) explora o desenvolvimento de novos alimentos funcionais à base de insetos enriquecidos com microalgas, com potencial para promover a saúde metabólica e contribuir para a prevenção da diabetes tipo 2.
O Innovation Radar é uma distinção que reconhece resultados de investigação financiada pela União Europeia, com elevado potencial de inovação.
Para João Varela, coordenador da participação do CCMAR no DiBaN e co-líder do grupo Marbiotech:
“O reconhecimento é muito importante para o nosso trabalho, pois este projeto abrirá novas avenidas de comercialização para as microalgas”.
Nutrição, microbioma e saúde metabólica
A diabetes tipo 2 é um dos maiores desafios de saúde pública a nível global. Estima-se que a sua prevalência continue a aumentar nas próximas décadas, em grande parte devido a regimes alimentares inadequados e alterações no microbioma intestinal.
O consumo excessivo de gordura e açúcar leva ao desequilibro do microbioma intestinal (disbiose) pois potencia o favorecimento de bactérias potencialmente patogénicas. A disbiose aumenta a inflamação e reduz a proteção natural, deixando espaço para o crescimento de bactérias indesejáveis.
“Dietas ricas em gorduras e açúcar aumentam não só a propensão de desenvolvimento da Diabetes Tipo 2, mas também podem alterar o microbioma do intestino, diminuindo a sua biodiversidade e bactérias consideradas benéficas (por ex., Lactobacillus sp.), cuja redução está associada à resistência à insulina.” – afirma João Varela.
O projeto DiBaN parte da premissa de que a alimentação pode desempenhar um papel central na regulação desta relação entre o microbioma intestinal e o metabolismo humano.
Insetos e microalgas como nova geração de alimentos funcionais
Para explorar esta ligação, os investigadores estão a desenvolver novos ingredientes alimentares derivados do inseto Acheta domesticus (grilo doméstico), rico em proteínas e compostos bioativos. No projeto, os insetos são alimentados com extratos bioativos de microalgas, estratégia que pode potenciar os seus benefícios nutricionais. A hipótese central do DiBaN é a de que a saúde metabólica do próprio inseto pode influenciar as propriedades dos produtos derivados, contribuindo para um microbioma intestinal mais equilibrado nos consumidores. Embora as microalgas já se encontrem no mercado alimentar, o projeto DiBaN estuda a sua utilização com vista a melhorar o poder nutritivo do grilo (Acheta domesticus), ainda em fase de aprovação como novel food pela União Europeia.
Duas inovações destacadas pela Comissão Europeia
As duas inovações destacadas no radar de inovação da Comissão Europeia, refletem diferentes níveis de maturidade tecnológica e potencial de aplicação.
Inovação 1 – Extratos de grilo enriquecidos com microalgas
- Suplemento alimentar com potencial notável de criação de mercado.
- Fase avançada de desenvolvimento, protótipos já validados.
- Reconhecida como women-led innovation, com liderança de Maria Monsalve e Angela Valverde (CSIC, Madrid).
“A espécie Acheta domesticus é rica em vitamina B12 e outros compostos bioativos, mas a alergenicidade está a ser estudada. Estamos a explorar o seu uso para pacientes com disbiose e diabetes tipo 2.” – explica-nos João Varela.
Inovação 2 – Enriquecimento alimentar com microalgas
- Produto tecnologicamente maduro, com elevado grau de preparação para entrada no mercado.
- Potencial para aplicações futuras no setor alimentar.
Os efeitos destes alimentos na saúde metabólica estão atualmente a ser avaliados em estudos piloto, incluindo ensaios com voluntários, sob supervisão científica.
Da investigação fundamental à inovação com impacto
Para testar o impacto destes novos alimentos, o projeto está também a desenvolver plataformas experimentais avançadas que simulam, em laboratório, as interações entre o microbioma intestinal e o metabolismo humano.
Os dados obtidos serão integrados no desenvolvimento de uma aplicação baseada em inteligência artificial capaz de prever respostas individuais a intervenções nutricionais e apoiar estratégias de nutrição personalizada.
Embora os resultados iniciais sejam promissores, os investigadores sublinham que serão necessários estudos adicionais para confirmar os efeitos destes ingredientes na saúde humana, avaliar o seu potencial em aplicações alimentares futuras e analisar cuidadosamente o risco de alergenicidade, que também está a ser investigado no projeto.




