Garantir que as plantas conseguem aceder aos nutrientes essenciais é um dos grandes desafios da agricultura moderna, em particular em regiões costeiras de clima mediterrânico, com solos calcários que apresentam baixa disponibilidade de ferro. Embora este elemento esteja frequentemente presente, nem sempre se encontra disponível de forma a ser facilmente absorvido pelas plantas. Isto provoca o desenvolvimento de clorose férrica — um problema fisiológico que reduz o crescimento, a produtividade e a qualidade das culturas.
Compreender como as plantas respondem a esta limitação nutricional tem implicações diretas na sustentabilidade dos sistemas agrícolas, na redução do uso de fertilizantes químicos e na adaptação da produção agrícola a condições ambientais cada vez mais exigentes.
Foi neste enquadramento que Teresa Saavedra desenvolveu o seu trabalho de doutoramento, investigando como as plantas regulam a sua fisiologia em resposta à deficiência de ferro, com particular destaque nas interações entre espécies e no papel dos compostos libertados pelas raízes como estratégia para melhorar a nutrição férrica. A investigação beneficiou do ambiente científico interdisciplinar do CCMAR e do acesso a infraestruturas, tecnologias analíticas e conhecimento transversal que têm vindo a apoiar projetos como o AgroSERV e o AQUASERV, alinhados com políticas europeias de segurança alimentar, sustentabilidade, resiliência agrícola e recuperação de ecossistemas (exemplos: Farm to Fork Strategy e Objetivos de Desenvolvimento Sustentável).
“O meu trabalho centrou-se em perceber como as interações entre plantas podem melhorar a nutrição em ferro e reduzir a clorose, através de respostas fisiológicas que vão além dos mecanismos clássicos de absorção.” – Teresa Saavedra
Ao longo do seu doutoramento, Teresa estudou três gramíneas perenes amplamente utilizadas — Poa pratensis, Lolium perenne e Festuca rubra.
As gramíneas perenes são plantas de longa duração e mantêm um sistema radicular permanente, permitindo-lhes o crescimento da parte área após o corte, o pastoreio ou períodos de stress ambiental. São amplamente utilizadas em pastagens, na alimentação animal, em relvados e espaços verdes, bem como em sistemas agrícolas sustentáveis, devido à sua elevada resistência, capacidade de adaptação e contributo para a proteção e fertilidade do solo. Estas características tornam-nas particularmente relevantes em regiões de clima mediterrânico, onde a limitação de nutrientes, como o ferro, representa um desafio crescente para a produtividade agrícola.
Para compreender como estas plantas lidam com a falta de ferro, as gramíneas foram cultivadas sob diferentes níveis de disponibilidade deste nutriente. Os resultados mostraram que, quando o ferro é escasso, as plantas não ficam passivas: ajustam o crescimento das raízes e passam a libertar no solo um conjunto de compostos químicos que ajudam a tornar o ferro mais acessível. Entre estes compostos estão fitosideróferos, ácidos orgânicos, compostos fenólicos e pequenos péptidos, capazes de se ligar ao ferro e facilitar a sua absorção, ao mesmo tempo que protegem a planta dos efeitos do stress causado pela deficiência nutricional.
De forma inesperada, o estudo revelou ainda que estas gramíneas ativam mecanismos normalmente associados a outros grupos de plantas, mostrando que as estratégias de aquisição de ferro são mais flexíveis do que se pensava. Entre as espécies analisadas, a Festuca rubra destacou-se pela sua elevada capacidade de adaptação, mantendo o crescimento mesmo em condições de baixa disponibilidade de ferro, o que reforça o seu potencial para utilização em sistemas agrícolas mais resilientes.
Resultados com impacto prático
Os resultados deste trabalho têm implicações diretas para a agricultura sustentável:
- Contribuem para o desenvolvimento de estratégias baseadas na fisiologia das plantas, reduzindo a dependência de corretivos químicos do solo.
- Apoiam a utilização de sistemas de consociação de culturas (intercropping) para melhorar a disponibilidade de nutrientes de forma natural.
- Fornecem conhecimento essencial para a gestão de solos problemáticos, comuns em regiões mediterrânicas e calcárias.
- Ajudam a compreender como as plantas lidam com o stress nutricional num contexto de alterações climáticas.
- Embora o estudo tenha sido realizado em condições controladas, os resultados estabelecem uma base sólida para futuras aplicações em solos agrícolas reais, onde a interação entre plantas, solo e microbiota desempenha um papel determinante.
Olhar para o futuro
Com a tese concluída e os resultados publicados, Teresa pretende dar continuidade à sua carreira científica na área das ciências das plantas, contribuindo para o avanço do conhecimento fundamental e para o desenvolvimento de soluções agrícolas mais sustentáveis e eficientes, especialmente adaptadas a condições ambientais adversas.
“O CCMAR proporcionou um ambiente científico estimulante, com acesso a infraestruturas, apoio técnico e um contexto de partilha de conhecimento que foi essencial para o sucesso desta investigação. O meu objetivo é continuar a trabalhar em ciência que ajude a resolver problemas reais, ligando o conhecimento fisiológico das plantas a práticas agrícolas mais sustentáveis.”
Referências:
Saavedra, T., Pestana, M., da Silva, J.P., Correia, P.J. (2025). Metabolites released by Poaceae roots under iron deficient conditions. Journal of Plant Nutrition and Soil Science, 188, 312-323.
doi.org/ 10.1002/jpln.202400307




