Entrevistámos Ana Marçalo, investigadora doutorada em Pescas do CCMAR. Veja o vídeo que mostra o trabalho realizado no âmbito do projeto LIFE Ilhas Barreira. Ana destaca a relevância da conservação das aves marinhas no contexto das pescas portuguesas, especialmente na região do Algarve, e enfatiza como a aplicação de técnicas específicas e a cooperação dos pescadores são fundamentais para mitigar uma das maiores ameaças que este grupo enfrenta - a pesca acidental.
O que despertou o seu interesse pela proteção das populações de aves marinhas no setor da pesca?
O meu interesse surgiu por perceber o impacto significativo que as atividades pesqueiras têm sobre as populações de aves marinhas.
Durante meus estudos e trabalho de campo, observei que muitas aves marinhas, sofrem mortalidade acidental ao se alimentarem dos iscos, restos de peixe ou rejeições (peixe capturado e não mantido a bordo por várias razões), ficando presas em anzóis ou redes de pesca. Este contato direto com a natureza e a oportunidade de contribuir para a conservação de espécies ameaçadas motivou-me a encontrar soluções que beneficiem tanto as aves quanto a comunidade piscatória.
Qual é a principal ameaça que aves marinhas, como a pardela balear e a gaivota de Audouin, enfrentam durante a pesca?
"A principal ameaça é a captura acidental (bycatch), onde aves são atraídas pelos iscos e peixes capturados e ficam presas em anzóis ou redes, resultando em ferimentos ou morte.
Esta ameaça é crítica para a pardela balear e a gaivota de Audouin, cujas populações estão em risco. Portugal tem uma responsabilidade maior em monitorizar e conservar estas espécies, uma vez que a maior população de gaivota de Audouin na Europa nidifica na ilha Deserta, na Ria Formosa, e a costa portuguesa é a área de invernada mais importante do mundo para a pardela-balear, a ave marinha mais ameaçada da Europa."
O que é que os pescadores têm a ganhar ao implementar medidas para afastar e, por sua vez, proteger estas aves marinhas?
"Ao adotar práticas de pesca responsável, os pescadores:
- melhoram a sustentabilidade das suas operações da pesca ao preservar os ecossistemas marinhos,
- têm acesso a mercados que valorizam as suas práticas responsáveis (potencialmente obtendo melhores preços),
- reduzem danos aos equipamentos causados por aves presas
- e melhoram a sua reputação na sociedade e entre autoridades reguladoras, contribuindo para a conservação de espécies ameaçadas."
Qual é a forma mais eficaz de proteger as aves marinhas durante a pesca e porquê?
"A forma mais eficaz de proteger as aves marinhas durante a pesca é reduzir a interação direta entre aves e equipamentos de pesca, minimizando, desta forma, a captura incidental.
Para isto podem ser utilizadas diversas técnicas, como o uso de iscos, dispositivos dissuasores, boas práticas tais como não deitar desperdícios de peixe para a água durante as manobras de pesca (alagem e largada da rede) para evitar atrair as aves durante esses períodos de maior risco, e horários ajustados para evitar picos de atividade das aves e técnicas que reduzam a atração das aves para junto das embarcações.
Contudo, para que as técnicas sejam eficazes e, de facto, adotadas, é crucial integrar e educar os pescadores sobre o uso e a importância das mesmas.
Quais são as tarefas e desafios que a equipa do CCMAR se irá debruçar agora, no âmbito desta problemática?
"A nossa equipa do CCMAR vai focar-se na monitorização das interações entre aves e pesca para obter dados atualizados, desenvolver campanhas de sensibilização* para pescadores e público sobre a importância da conservação das aves marinhas, e construir parcerias com governos, ONGs e outras entidades para garantir financiamento e apoio contínuo para estes projetos."
* realizadas com base nos resultados e trabalho realizado no âmbito do projeto Life Ilhas Barreira




