Skip to main content
Três pesquisadores da Universidade do Algarve estão atualmente no Ártico, integrados numa equipe internacional, estudando os efeitos das alterações climáticas nos microrganismos marinhos que constituem a base da cadeia alimentar das espécies daquele oceano.

Três pesquisadores da Universidade do Algarve estão atualmente no Ártico, integrados numa equipe internacional, estudando os efeitos das alterações climáticas nos microrganismos marinhos que constituem a base da cadeia alimentar das espécies daquele oceano.

Ester Serrão, um dos portugueses a bordo do navio de pesquisa norueguês "Jan Mayen", a mais de 80 graus de latitude Norte, explicou à Agência Lusa por e-mail que a equipe está desde 15 de junho recolhendo amostras de pequenas algas microscópicas para posterior análise no Centro de Ciências do Mar (CCMAR) da Universidade do Algarve, a que pertencem.

A missão inclui uma primeira parte de amostragem a bordo do navio, que ocorre até 29 de junho, e outra numa estação de pesquisa polar norueguesa localizada na ilha de Spitsbergen, desde aquele dia até 20 de julho, durante a qual os cientistas farão experiências com as amostras recolhidas.

Os efeitos das alterações climáticas, principalmente o aumento da temperatura no Ártico, serão estudados ao nível dos genes que são expressos pelas microalgas das comunidades de fitoplânton em diferentes condições ambientais naturais e em condições de aumento experimental da temperatura da água até aos valores máximos previstos para aquele oceano por modelos teóricos de aquecimento global.

O fitoplâncton é constituído por algas unicelulares que transformam o dióxido de carbono (CO2) e a luz solar em alimento, como as plantas no meio terrestre, sustentando assim a cadeia alimentar do Ártico.

Concretamente, os pesquisadores irão testar na ilha de Spitsbergen os efeitos de diferentes graus de aquecimento de água do Ártico (atualmente a -1 grau Celcius) até ao máximo previsto para aquelas águas, que é de +9 graus Celsius, para verificar que categorias funcionais de genes são expressas pelos microrganismos naquelas condições.

A esperança da equipe é que alguns desses genes possam vir a servir de "sinais de alarme" para eventuais mudanças irreversíveis nos ecossistemas.

"Temos encontrado e amostrado comunidades de muitas espécies, mas dominadas por uma espécie de microalga que desempenha um papel fundamental no Ártico, designada Phaeocystis pouchetii", afirmou Ester Serrão, que além de pesquisadora no CCMAR é docente na Universidade do Algarve.

As algas do gênero Phaeocystis, que predominam no Ártico e na Antártida, dão uma grande contribuição para a produção primária dos oceanos do planeta e para a utilização de dióxido de carbono da atmosfera, cujo excesso é um dos fatores que causam aquecimento global.

Interrogada sobre o significado da participação de portugueses na missão - integrada no projeto europeu Arctic Tipping Points, coordenado pela Universidade de Tromso, na Noruega - Ester Serrão disse que lhe faz "sentir a responsabilidade de poder utilizar a contribuição científica de Portugal num grupo tão diversificado de cientistas de 11 países que se juntam para melhor compreender e prever os efeitos do aumento da temperatura do Ártico".

Na sua perspectiva, trata-se de "uma ameaça global com implicações dramáticas aos níveis físico, biológico, econômico e sociológico do planeta, mesmo muito longe da região Ártica".

É para estudar as alterações a esses diferentes níveis que o projeto junta pesquisadores de vários domínios científicos, desde a Biologia à Física e à Economia, passando pelas Ciências Sociais.

Numa nota mais pessoal, a cientista destacou a emoção sentida por todos os membros da equipe "ao observar a beleza destas paisagens de gelo flutuante e pensar que dentro de poucas décadas poderá, segundo as previsões, deixar de haver gelo nesta região durante o verão".

A confirmar-se esse cenário, acrescentou, "desaparecerá o habitat de numerosas espécies, desde as microalgas que vivem no gelo e os pequenos animais do zooplâncton que as comem, até às morsas, baleias e ursos polares que temos observado muito de perto".

"Observar estes animais e estas paisagens fantásticas faz-nos também pensar em como é irônico que esta região do mundo seja um sumidoro de poluição de tantas zonas longínquas do mundo, através de partículas de poluentes que são transportadas pela atmosfera para se virem aqui depositar numa região aparentemente tão pristina", comentou.

Os outros dois membros do grupo de trabalho português a bordo do "Jan Mayen" são o pesquisador auxiliar Garetth Pearson e a bolsista pós-doutorada Ana Ramos.

Neste cruzeiro de pesquisa participam também artistas que procuram inspiração nas atividades científicas e jornalistas que as noticiam para os seus países, contribuindo, segundo Ester Serrão, para um ambiente "muito amigável, descontraído e divertido".


Notícia Lusa (27/06/2009)


Diário de Notícias (27/06/2009)


Correio da Manhã (28/06/09)


Madrid Mas D (22/06/2009)


Ciência PT.net (22/06/2009)

Notícia EPA (European Pressphoto Agency) (27/06/2009)